Brasil teve mais de mil greves em 2025, puxadas por atraso de salários e deterioração do trabalho

 

greve

 

O Brasil registrou 1.006 greves ao longo de 2025, um aumento de 14% em relação ao ano anterior, segundo balanço do DIEESE. O dado, por si só, já indica um recrudescimento dos conflitos trabalhistas — mas é na natureza dessas mobilizações que se revela um quadro mais profundo: a greve, cada vez mais, deixa de ser instrumento de conquista para se tornar reação à perda de direitos.

Mais da metade das paralisações (54%) ocorreu na esfera privada, que também apresentou crescimento expressivo no número de greves. Já nas empresas estatais, o avanço foi ainda mais acentuado, com alta de 54%. No funcionalismo público, o volume se manteve relativamente estável — embora concentre a maior parte das horas paradas.

Ao todo, foram contabilizadas cerca de 33 mil horas de trabalho interrompidas. Apesar da elevação no número de greves, houve uma redução de 10% no tempo total parado, indicando mobilizações mais curtas — 59% delas encerradas no mesmo dia em que começaram.

 

Greve como defesa, não como avanço

O traço mais marcante de 2025 é o predomínio das chamadas greves defensivas. Em 81% dos casos, os trabalhadores paralisaram atividades para preservar condições já existentes ou denunciar o descumprimento de direitos básicos. 

Na prática, isso significa que grande parte das mobilizações não buscava ganhos reais, mas sim evitar perdas. Questões como atraso no pagamento de salários, falta de alimentação adequada e deterioração das condições de trabalho estiveram no centro das reivindicações.

O reajuste salarial apareceu como principal demanda geral (35%), mas frequentemente associado à recomposição de perdas acumuladas — e não necessariamente a aumentos reais.

 

Setor privado: salários atrasados e informalização

No setor privado, o cenário é ainda mais crítico. A principal pauta das greves foi a regularização de salários em atraso, presente em 43% das mobilizações.  Esse dado revela um padrão de descumprimento sistemático de obrigações básicas por parte de empregadores, sobretudo em segmentos mais precarizados, como serviços terceirizados. Alimentação (36%) e reajuste salarial (22%) aparecem na sequência como principais reivindicações. 


As greves nesse setor também tendem a ser mais fragmentadas: 91% ocorreram no nível de empresas ou unidades específicas, e não por categoria — o que aponta para uma dificuldade maior de articulação coletiva.

 

Funcionalismo: pressão política e educação no centro

Entre servidores públicos, as greves tiveram caráter mais heterogêneo, combinando pautas defensivas, propositivas e de protesto político.Quase metade das paralisações foi liderada por profissionais da educação (48%), e dois terços ocorreram no nível municipal. Além do reajuste salarial (54%), ganharam destaque reivindicações por mais investimentos nos serviços públicos (50%) e protestos contra políticas governamentais (51%).

 

Estatais: condições de trabalho em foco

Nas empresas estatais, as greves foram menos numerosas, mas concentradas em setores estratégicos, como energia e comunicações. A principal demanda foi a melhoria das condições de trabalho (32%), seguida por reajustes salariais (24%).

Em 88% dos casos com desfecho conhecido, houve abertura de negociação entre trabalhadores e empregadores. A Justiça foi acionada em cerca de um terço das greves.

Apesar disso, o padrão que emerge é de conflitos recorrentes e pouco estruturais: ainda que 73% das greves tenham alcançado algum nível de atendimento das reivindicações, muitas delas tratam de problemas que voltam a se repetir.

 

Fonte: Dieese

 

 

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