Economista do Dieese fala dos desafios dos trabalhadores ante a nova conjuntura mundial e a disputa política nacional

Enfrentamento geopolítico de novo bloco liderado pela China contra os EUA e a Europa Ocidental, transformações tecnológicas do capitalismo e desafios do Brasil foram abordados por Fausto Augusto


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O economista e técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Fausto Augusto, abriu os painéis de debate neste segundo dia da 4ª Conferência Estadual dos Bancários do Rio de Janeiro), realizado neste sábado (18), na Galeria dos Empregados do Comércio, no Centro da capital fluminense.

Fausto falou dos desafios dos trabalhadores ante as mudanças estruturais do ponto de vista econômico e da conjuntura internacional, destacando o dilema do movimento sindical com ferramentas dos séculos IX e XX para enfrentar as mudanças do século XXI.

Mudança geopolítica

O técnico do Dieese destacou a questão da mudança geopolítica desde a crise capitalista de 2008. Lembrou que o mundo passou por anos pela chamada “Guerra Fria”, com a disputa pela hegemonia entre os EUA e a então União Soviética, capitalismo x comunismo, em seguida, com a queda do bloco comunista, um avanço do domínio liderado pelos EUA até chegar aos nossos dias, com uma nova polaridade entre os americanos e a Europa Ocidental e o avanço de um novo bloco liderado pela rápido desenvolvimento econômico e tecnológico da China.

“A China não era nem levada em consideração na guerra fria. Hoje é uma nação que atingiu um estágio superior ao socialismo soviético. Não está mais em discussão apenas a disputa entre capitalismo e socialismo. Os chineses caminham depressa para tornarem-se a maior economia do mundo. Diferente da ex-união soviética e dos EUA, a economia chinesa é muito mais marcada por uma visão cultural e civilizatória diferente”, declarou.

“Nossa visão de sindicato, tipicamente ocidental, influenciada pelo sindicalismo inglês, alemão e americano, a princípio atrelada ao estado, como dizíamos em relação ao período de Getúlio Vargas, na China os sindicatos estão relacionados diretamente ao Partido Comunista, já que eles fizeram a revolução do proletariado”, explicou.

A disputa na América Latina

O economista lembra que a China avança com fortes investimentos na América Latina, o que tem resultado numa reação dos EUA, que incluem influência na política interna dos países da região, citando a operação Lava-Jato, que levou empresas de grande competitividade internacional a quebrarem e o impeachment de Dilma Roussef como fatos que revelam estas ações dos americanos no Cone Sul.

“Xi Jiping vem ao Brasil para propor ao Brasil a consolidação do ingresso no bloco liderado pela China. Há uma disputa com os EUA na região e os americanos buscam aumentar a presença no México, Colômbia e Brasil”, disse, lembrando que esta preocupação dos americanos na América Latina sempre existiu, citando a discussão se o Brasil se juntava ao Eixo ou aos aliados na segunda grande guerrra, quando Getúlio “namorou com a Alemanha e casou com os americanos” na guerra mudou o Brasil e resultou no maior crescimento industrial do país.

“Milei – novo presidente da Argentina = diz que não quer relação com a China, mas se não fizer isso, ele quebra de vez a economia de seu país”, afirmou.

Guerras no centro da disputa

Fusto Augusto destacou ainda que “a ideia do live mercado, formada nas escolas de mercado e pela massificação na mídia e nas empresas, como nos bancos”, fazem parte desta disputa por hegemonia, em que os americanos protegem suas indústrias, conhecimento científico e mercado ante este debate estratégico.

Considera a Guerra na Ucrânia, o maior conflito desde a segunda Guerra Mundial, como parte central desta disputa geopolítica.

“Se olhamos para a Rússia, vemos que Putin não tem a visão como se fosse a URSS, ele está muito mais como um Csar, na defesa de uma sociedade patriarcal e com forte presença da Igreja Ortodoxo”, ressaltou, apontando as sanções econômicas e políticas do Ocidente contra a Rússia como exemplo da relevância da disputa hegemônica em relação à guerra na Ucrânia, destacando a crise de duas décadas da Europa e ascensão da direita no continente, re

“A Europa vive uma crise de duas décadas que resultou na ascensão da direita europeia e esta crise está relacionada à questão energética e estas questões estão inseridas nas razões que levaram ||à guerra na Ucrânia”, acrescentou.

“Estoura outra guerra, no oriente Médio, não está em jogo apenas um conflito de mil anos, mas o embate hoje está relacionado um reposicionamento político na região. A Arábia Saudita está realinhada com o Ocidente, mas parte do país começa a abrir relações com a China”, afirmou.

“Desde 1948, com o acordo de Bretton Woods, que o dólar não é questionado como moeda das ações comerciais globais. Agora, o oriente e parte da América Latina começam a comercializar em Yuan – moeda chinesa – revelando uma nova organização comercial mundial, sonhada inclusive por Celso Amorim e por Lula”, disse Fausto.

“A ideia de que a China vai ser a grande economia global faz com que a disputa com os EUA e a Europa, aconteça em bases cada vez mais violentas”, destacou, justificando os conflitos com presença das grandes potências militares na Ucrânia e no Oriente Médio.

Cenário nacional e desafios

Em relação ao cenário da macroeconomia brasileira, Fausto disse que o pais apresenta melhoras, mas que a população parece ainda não se dar conta disso e exige mais.

“Crescemos 2,9% em 2023, com expectativa de novo crescimento em 2024, apesar do custo da necessidade de reconstrução do Rio Grande do Sul. A inflação chegou ao seu menor patamar 2022, chegando a 4,62% no ano passado e com uma previsão de 3,73% em 2024, o que leva a uma queda relativa dos juros. A taxa de desemprego em 2023 foi de 7,4%, a menor desde 2014. Não tem como debater que a situação está pior do que a um ou dois anos atrás. Por outro lado as pesquisas de opinião mostram que a avaliação do governo caiu e estamos em ano eleitoral e daqui a dois anos vamos ter uma nova disputa presidencial”, disse, lembrando que “a eleição deste ano não é qualquer eleição, pois, o governo Lula a duras penas conseguiu uma base mínima que permite governar em parte, mas a eleição da presidência da Câmara dos Deputados e principais o pleito municipal serão decisivos, pois se a base do governo encolher terá mais dificuldade de governar nos últimos dois anos da atual gestão”.

“A vida das pessoas precisa melhorar, não apenas os números das planilhas”, declarou o técnico do Dieese, referindo-se à questão da percepção da população em relação às melhorias promovidas pela política econômica do governo Lula.

“A situação estava tão ruim, como trem da central lotado, afora melhorou um pouco, mas o povo continua viajando em pé, quer ir sentado e não levar mais uma hora e meia no percurso, o povo quer ‘educação e saúde padrão Fifa’. Por mais que o salário mínimo tenha crescido, na outra ponta o botijão de gás está custando R$120, o arroz, que já estava caro vai subir ainda e o feijão que não caiu”, justificou, criticando o fato de, em 2022, o governo Bolsonaro ter vendido todo o estoque de arroz para o oriente com a pandemia e não ter feito um estoque para o mercado do consumo interno.

“A maior parte dos serviços públicos foram privatizados. O governo guarda soja e milho para vender ao mercado externo num momento favorável, mas não se preocupou em estocar arroz e feijão para a população brasileira”, afirmou.

“Estamos melhor que há dois anos atrás, Lula não é eterno, precisamos construir lideranças fortes rápido e fazer as mudanças em nossas organizações para aprofundar as mudanças estruturais, enfrentar a revolução tecnológica, a Inteligência Artificial, que está só começando, o debate da questão ambiental e da disputa geopolítica internacional”, concluiu Fausto.

Autor: Carlos Vasconcellos

Fonte: Imprensa SeebRio/Dieese

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